segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Kia e a Liga dos Magnatas

(publicado no Estadão em 16 de setembro de 2007; aqui vai a crônica original, um pouquinho mais apimentada do que a versão publicada no jornal)



Marcos Alvito



Pode não servir de consolo aos corintianos, mas Kia Joorabchian também andou aprontando aqui na Inglaterra. Todos se lembram que Tevez foi escolhido o melhor jogador do Campeonato Brasileiro de 2005. Em seguida, KJ empresta Tevez e Mascherano ao West Ham, um clube mediano da bilionária Premier League. E Tevez acabou fazendo gols importantes, levando o West Ham a vencer sete dos seus últimos nove jogos e evitando o rebaixamento do clube. Acontece que pela legislação inglesa os direitos federativos de um jogador não podem estar nas mãos de terceiros. Ou seja, a contratação de Tevez foi aquilo que um jornalista inglês chamou de “farsa”. Aí começou a confusão. KJ, depois de ver a sua mercadoria valorizada, queria repassá-la ao Manchester United, um dos clubes mais ricos do planeta. O West Ham não queria liberar Tevez. Outros clubes queriam ver o West Ham perder os pontos e ser rebaixado. As autoridades da Premier League lavaram as mãos. Impuseram uma pesada multa de 5,5 milhões de libras (22 milhões de reais) ao West Ham, mas não o fizeram perder pontos. Tevez, é claro, começou a temporada atual vestindo a camisa vermelha do Manchester United.
Kia, na verdade, é apenas a ponta de um iceberg de corrupção envolvendo os clubes da Premier League. Antes da temporada atual começar, estourou um escândalo envolvendo relações duvidosas entre técnicos e empresários. Isto levou a polícia inglesa a invadir a sede de três clubes de madrugada, como se Rangers, Portsmouth e Newcastle fossem fortalezas da máfia. E talvez sejam...
Boa parte dos bilhões que circulam na poderosa primeira divisão inglesa vieram de fora. De vinte clubes, nove têm proprietários estrangeiros. Alguns, de reputação duvidosa, como o primeiro estrangeiro a comprar um clube da então Premiership no verão de 2003, o agora famoso Roman Abramovich. Em apenas dois anos ele investiu 210 milhões de libras. Com o dinheiro russo, um arrogante e polêmico técnico português - José Mourinho, agora desempregado - e dúzias de jogadores estrangeiros dos quatro cantos do globo, o Chelsea foi campeão inglês nas temporadas de 2004-5 e 2005-6, além de ter chegado quase até a final da Champions League. Diz-se que a fortuna de Abramovich é proveniente das nebulosas privatizações ocorridas após o fim do regime comunista na Rússia. Devem ter sido ótimos negócios, porque Abramovich teve um prejuízo de 80 milhões de libras somente na temporada 2005-6 e mesmo assim não dá sinais de que vá cessar de botar a mão no bolso. Qual será a razão de tanto desprendimento ? Perguntem ao Kia...
O mais recente membro deste seleto clube é Thaksin Shinawatra, ex-primeiro ministro da Tailândia, que comprou o Manchester City em julho de 2007. Ex-oficial da polícia, Thaksin tornou-se bilionário como proprietário de uma empresa do setor de telefonia móvel e mídia. Chegou ao poder em 2001. Derrubado por um golpe militar em outubro de 2006, exilou-se na Inglaterra. Hoje ele é processado por corrupção pelo atual governo, que congelou um bilhão de libras da fortuna de Shinawatra. Além disso, a respeitada organização mundial de direitos humanos Human Rights Watch encaminhou um protesto formal à Premier League, acusando o atual proprietário do Manchester City de ser um “transgressor dos direitos humanos da pior espécie”. Detalhes? Ataques à liberdade de imprensa e uso de uma suposta guerra às drogas para desaparecer com pessoas desagradáveis. Na Tailândia ele é chamado de Ai Na Liam, “o cara quadrada”, um trocadilho para trambiqueiro. A Premier League, cujo regulamento estabelece que para ser proprietário de um clube é preciso ser uma pessoa “correta e honesta”, fez de conta que não sabia de nada e lavou as mãos novamente.
Não é de estranhar este pragmatismo (para dizer o mínimo) da Premier League. A então Premiership foi criada em 1992 exatamente para romper as últimas amarras que impediam a transformação da primeira divisão da liga em um negócio bilionário. Antes de 1992, por exemplo, o dinheiro proveniente dos direitos de televisão era repartido pela Football League de forma razoavelmente equilibrada: 50% iam para os clubes da antiga 1a. Divisão, 25% para os da 2a. e os clubes da 3a. e 4a. divisões dividiam os restantes 25%. Hoje em dia a Premier League negocia com exclusividade os direitos de tv de um campeonato que é transmitido para mais de 200 países. Para as três temporadas entre 2007-8 e 2009-10, estes direitos foram vendidos por 2,7 bilhões de libras. Desta soma inacreditável, apenas 1,2% vai para a Football League (leia-se, os clubes da 2a., 3a. e 4a. Divisões).
As consequências mais danosas, todavia, talvez tenham sido as esportivas. Dinheiro chama dinheiro, reza o ditado. Os clubes mais ricos, que podem investir em melhores jogadores, tendem a monopolizar as melhores colocações, arrebatando prêmios, conseguindo patrocínios milionários e a parte do leão dos direitos de tv. A boa colocação também permite a participação nas competições européias (sobretudo a riquíssima Champions League), o que traz mais dinheiro de direitos de tv, prêmios por participação, patrocínio etc. Com isso conseguem mais dinheiro, que permite comprar melhores jogadores e por aí vai... Não admira que já se vendam camisas dizendo “De saco-cheio dos quatro grandes”. Há também reações mais politizadas e organizadas. Torcedores inconformados com a venda do Manchester United para um milionário americano criaram um clube próprio, chamado FC United of Manchester. Codinome: rebels (rebeldes).
Mas por enquanto, a liga de futebol mais rica do mundo não está dando a menor bola para os protestos ou para os esquemas alternativos. Ou seja, pouco importa que Thaksin Shinawatra seja tailandês, Abramovich e Gaydamak (Portsmouth) russos, Eggert Magnusson (West Ham) islandês e Carson Yeung (Birmingham City) chinês de Hong Kong. Ou até que Kia Joorabchian seja iraniano.Todos eles falam muito bem a única língua entendida na Premier League: grana.


A PRÓXIMA CRÔNICA, a INÉDITA "Yellow Submarine", será postada na 3a. feira, 16 de outubro

3 comentários:

Fernanda disse...

meu filho até eu que não aprecio muito futebol, gosto do tua cronica está muito boa de ler e muito bem humorada e instrutiva para os aficionadoa por futebol devem adorar,você está de parabens .
beijos mãe

Romulo disse...

O Michel Platini já está tentando criar mecanismos para diminuir o poder desses magnatas estrangeiros proprietários de clubes. Procure se informar a esse respeito (se vc não já sabe disso). A proposta do ex-jogador francês pode enriquecer a sua análise... Será que a demissão do Mourinho - num campeonato em que os técnicos dos grandes times costumam ficar muuuuuuito tempo no comando, mesmo sem ser campeões todos os anos - também não pode ser vista como uma nova lógica imposta pela chegada desse magnatas estrangeiros proprietários de clube? Parabéns de novo! Abraços!

Alexandre Fernandez Vaz disse...

Parabéns, M. Alvito, texto ótimo, informativo, agradável e ao mesmo tempo um tanto exigente.