terça-feira, 27 de novembro de 2007

CONVERSANDO COM A PRIMA DE MARADONA - SEGUNDA PARTE

Hoje continuamos nossa conversa com a jornalista argentina Marcela Mora y Araujo. Desta vez ela fala sobre os problemas de adaptação dos jogadores latino-americanos na Terra da Rainha, sobre a nebulosa máfia de agentes e dirigentes de futebol e, conforme prometido, sobre a famosa gambetta.
A partir de uma série de entrevistas e contatos com jogadores sul-americanos, sobretudo argentinos, Marcela percebeu um problema que poucos conseguem imaginar. Famosos e muito bem pagos, nem por isso os jogadores de futebol integram-se com facilidade à sociedade inglesa. Ficam isolados, primeiramente, pela língua. “Para um ser humano é espantosa a circunstância de trabalhar sem conhecer o idioma de seus companheiros”, comenta Marcela. “Isso acontece aos jogadores de futebol o tempo todo. Os futebolistas se movem como nômades. Até a Arábia Saudita está cheia de jogadores vindos do mundo todo.” Quando chegam ao clube, jogadores como Tévez ou Verón ficam sentados no vestiário sem entender as piadas, sem poder conversar com ninguém.
Há diferenças que afetam muito o rendimento dos jogadores. Na Inglaterra, lembra Marcela, os jogadores chegam, cada um no seu carro, apenas 3 horas antes do jogo. Na Argentina a equipe fica concentrada três dias, jogando cartas e conversando. Quer dizer, na Inglaterra é mais difícil criar um vínculo pessoal, é uma relação fria, estritamente profissional. Em campo, o jogador muitas vezes é colocado fora da sua posição, rende mal e acaba na reserva.
Fora de campo também é complicado. Certa vez, conversando com Hernán Crespo, famoso goleador da seleção argentina, ele disse a ela: “Estou aqui na minha casa luxuosa, sem saber como fazer para estabelecer uma conexão à Internet, sem saber a quem chamar e sem saber como falar”. Os clubes investem milhões nestes jogadores, mas ao contrário do que fazem empresas multinacionais ou até mesmo o Exército, não há nenhuma infra-estrutura de apoio. Um jogador entrevistado por ela dependia totalmente de um amigo que falava a sua língua. A tal ponto que quando a mulher do jogador foi dar à luz ele levou o amigo para assistir ao parto, porque ele era a única pessoa em quem confiava e a única esperança de comunicar-se com os médicos. Marcela recorda um outro caso, em que a esposa do jogador mexicano Juan Pablo Angel foi atendida em estado grave, enquanto ele “ficou numa cadeira dormindo com o bebê recém-nascido nos braços, sem entender nada da língua nem ser capaz de falar nada.” Ela vê isso como um caso extremo de alienação.
A barreira mais difícil de transpor diz respeito à própria forma de jogar futebol. Marcela conta um caso delicioso a esse respeito. Em uma Copa do Mundo, a seleção argentina marcou um belíssimo gol a partir de uma troca de 24 passes. O que gerou o comentário indignado de um torcedor inglês pela Internet: “Pra quê gastar 24 passes se um chutão do goleiro daria o mesmo resultado?”
Os jogadores sul-americanos gostam de ficar com a bola, manter a posse da bola, enquanto os ingleses gostam de correr pelo campo, em lançamentos longos para a frente. Para Marcela, esta diferença nasce do contexto econômico: “na América do Sul, as crianças pobres têm na bola o único brinquedo, dividido com dezenas de outras crianças. É normal que apreciem ficar com ela.” Na Inglaterra o sistema é outro: a individualidade é malvista e desde cedo as fantasias e as jogadas criativas são recriminadas em nome do jogo coletivo. “O jogador argentino”, diz Mora y Araujo elaborando sua hipótese, “tem o desejo pela bola, o desejo de criança de entrar em campo e ficar com ela o maior tempo possível, não quer dar um chutão para um companheiro lá na frente como no futebol inglês.”
Para Marcela, não há nada que exemplifique melhor esta defasagem cultural do que o termo gambetta. A palavra vem do italiano, mas é vista como sinônimo do futebol argentino. Para o ex-craque da seleção argentina Jorge Valdano, “a gambetta é o gosto pela firula, é outra forma de dançar o tango”. Há dois elementos essenciais no ato de “gambetear”. O primeiro é enganar o adversário e o outro é brincar com a bola, guardá-la para si. Até mesmo jogadores que não “gambeteiam” valorizam a gambetta, por ela fazer parte de uma tradição cultural na qual estão inseridos. Mascherano, conhecido como um impiedoso volante de contenção, definiu a gambetta como “Aquilo que o futebol tem de mais lindo”. O eficiente mas não muito técnico Hernan Crespo foi direto como seus potentes chutes a gol: “É aquilo que os argentinos sabem fazer.” Para o habilidoso Carlos Tévez, a gambetta é “driblar com tango, tentando enganar e bater seu adversário”.
A gambetta, este traço identitário do jogador argentina, é intraduzível para o inglês, argumenta Marcela. Sendo assim, fica tudo mais complicado: “Como fazer se se não há palavra para o teu papel dentro de campo, se não há palavra para o que fazes com o teu corpo?” Na Itália e na Espanha, ao contrário, não há a mesma dificuldade, a comida é a mesma, o estilo de futebol é familiar.
O jogador sul-americano, ademais, vem de uma cultura em que as regras informais imperam, e Marcela lembra que quando visitou o Rio foi aconselhada a não parar nos sinais vermelhos. Mas não é isso que acontece na Inglaterra. “Aqui”, enfatiza Marcela, “a princípio tem que se seguir a regra escrita, é essa que vale”. É claro que os ingleses não são santos. Cita um episódio que ilustra bem o que quer dizer. Ela estava fazendo um programa em que o grande atacante inglês Gary Lineker, ex-chuteira de ouro na Europa, entrevistava os outros jogadores já agraciados com o mesmo prêmio. Lineker era sempre anunciado como o jogador que nunca levara um cartão amarelo. Intrigada com aquilo, Marcela pergunta a ele se nunca havia feito uma falta. Lineker responde zangado “É claro que sim! Mas nunca tomei um cartão!” Ou seja: a questão é “not get caught”, evitar ser pego em flagrante. Marcela aponta as incoerências: “Aqui se critica a simulação mas também se pratica, aqui se critica um gol de mão, mas se ganha um Mundial com uma bola que não se sabe se atravessou a linha, é um sistema de valores diferente, mas nesta cultura nunca se pode dizer 'Ah, mas essa regra não vale.'” Tudo isto dificulta a carreira dos jogadores latino-americanos no futebol inglês.
Caso raro de jogador brasileiro bem adaptado ao futebol da ilha, Gilberto Siva foi entrevistado por Marcela para uma revista da Nike. A empresa de material esportivo queria que Gilberto Silva dissesse que no Brasil é mais importante jogar bonito do que ganhar. “Logo Gilberto Silva”, diz Marcela sem conter um riso irônico, “que ganhou um Mundial [2002] com um Brasil que jogava um futebol nada bonito”. E durante a entrevista ele afirmava: “No Brasil é muito importante ganhar, estou muito orgulhoso de haver ganho uma Copa do Mundo”. Marcela entrega a entrevista e dizem a ela que seria necessário que Gilberto dissesse algo mais (aquilo que eles queriam). “Então mostrei-lhes a transcrição integral da entrevista em que eu lhe perguntava: 'Poderia dizer que no Brasil é menos importante ganhar do que jogar bonito ... ' E ele respondia: 'Não, não, não”, foram oito negativas em seguida”. Apesar disso a Nike publicou: “No Brasil jogar bonito é mais importante do que ganhar, diz Gilberto Silva”. Para Marcela, este episódio revela “como se vende o futebol, de como se embala, empacota e se projeta uma idéia”.
Sobre o futebol como negócio, Marcela relembra um encontro com Kia Joorabchian e amigos deste. “Em um desses hotéis cinco estrelas indo atrás dos jogadores e de suas famílias, esbarrava em empresários gordos e engravatados, sentados falando ao celular e fumando charuto. Perguntei a um deles se concordava que o futebol era uma forma de poesia ou arte.” Ele negou, sorrindo e afirmando cinicamente: “Futebol é cobiça”. Com os bilhões hoje gerados pelo esporte mais popular do planeta, personagens escusas gravitam em torno dos jogadores. Marcela é contundente a este respeito: “os jogadores são trabalhadores em torno dos quais se construiu esse monstro. Podemos vê-los como soldados, como os músculos de uma organização criminosa, marionetes de um cenário assustador com gangsters panamenhos, árabes misteriosos e personagens deste quilate.”
O genial Maradona conhece como ninguém este teatro. Marcela estava com ele quando o barraram na entrada de uma tribuna especial. O craque estava de jeans e camiseta, e ali o traje obrigatório era camisa e gravata. Maradona recusou-se a mudar de roupa e desabafou com Marcela: “O que esses caras não entendem é que tudo isso, toda essa riqueza, foi criada por nós, jogadores de futebol”. Os pés de Diego Armando Maradona não pisam mais os campos com sua inigualável e sempre surpreendente técnica. Mas sua “prima espiritual” Marcela Mora y Araujo usa sua visão refinada e crítica para apontar que há algo de errado nesse enredo: “Aonde há pobreza haverá bons jogadores. E eles serão vendidos para a Europa e haverá pessoas pagando para vê-los e se fará dinheiro com eles. Nós, o público, somos os consumidores desse negócio. É um desafio conseguir fazer com que o futebol, além de um grande show, não seja algo grotesco.”

Prorrogação:
Marcela sempre interessou-se pelos aspectos culturais e políticos do futebol. Quem quiser conferir pode dar uma clicada neste excelente artigo sobre a Holanda vista pelos argentinos e que explica de forma exemplar o uso que a Ditadura Militar argentina fez da Copa de 1978 (link: http://blogs.guardian.co.uk/worldcup06/2006/06/21/holland_according_to_argentina.html ).

2 comentários:

Marina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marina disse...

Acho que o que diferencia a conduta dos argentinos e dos ingleses não pode pautar-se principalmente na questão econômica. Teria muito mais a ver, na minha opinião, com a postura que o jogador adquire pelas características culturais dos respectivos países. A oposição entre a informalidade argentina (e latina de maneira geral) e a formalidade inglesa talvez explique muito mais a maneira como o jogador de cada um desses países se porta em campo.

Muito interessante poder ler a continuação da entrevista.

Marina.
marinagerasso@gmail.com